23 de outubro de 2017

SER OU NÃO-SER?

Peço perdão aos caros leitores pelo trocadilho infame presente no título deste, e pelo imenso clichê do que segue, mas nestes dias sombrios parece ser necessário ressaltar o óbvio. O crescente e contínuo desrespeito à vida humana parece ter atingido um novo patamar recentemente, mas parecemos não ter nos dado conta. Longe de ser este um daqueles textos que “chama a atenção para a banalização da vida” ou um texto apelativo, com frases de efeito que fariam muita mocinha narcisista ir aos prantos, o nobre leitor deve ter percebido que iniciamos hoje com uma postura diferente daquela à qual estamos habituados. Não é para menos.

Desde antes do surgimento da Filosofia, há dois mil e quinhentos anos, na Grécia (não presumam os leitores orientalistas que aqui ignoramos a contribuição das nações orientais milenares para a Filosofia, pois falaremos disto em outra oportunidade), o homem tem se preocupado com as causas de sua existência no mundo. Longe de ter alcançado uma resposta, os filósofos gregos voltaram-se para a realidade, com os pré-socráticos, e depois para si, com Sócrates, Platão e Aristóteles, para tentar compreender o porquê de sermos neste mundo. Estranha esta afirmação, não? “Sermos no mundo?”, pensará o caro leitor. Sim. Esse negócio de mera existência é para contemporâneos lamurientos leitores de Sartre. Não trataremos disto aqui.

Dois grandes pensadores pré-socráticos trataram deste assunto com extrema minúcia e para compreender o que nos acomete nos dias atuais é necessário que compreendamos o que pensavam aqueles homens a respeito desta coisa tão curiosa que é o ser. Já pincelamos acerca de Heráclito aqui, mas ainda não falamos praticamente nada diretamente a respeito de seu contemporâneo Parmênides de Eleia (530-460 a.C.), o filósofo da identidade. Este eminente pensador inaugurou as bases para a Ontologia, como a conhecemos, e fundamentou uma série de princípios lógicos que guiaram o pensamento posterior de maneira incomensurável.

Ontologia, caso seja do interesse do leitor, é o estudo do ser enquanto ser, (ou do ente enquanto ente: discuta com o professor Carlos Nougué), ou seja, daquilo que é. “Cadeira” é “cadeira”, e quando eu intuo a cadeira em sua totalidade, sem me preocupar com sua aparência ou com aquilo que lhe é passageiro, eu intuo o ser da cadeira, que infelizmente nossa porca linguagem ainda não nos permite traduzir. Mas a intuição está lá, senão não haveria conhecimento algum (discuta com o professor Olavo de Carvalho). Mas estamos divagando.

Parmênides afirma que “o que é, é, e não pode não ser”. Confuso? Nem tanto. Cadeira é cadeira e não pode não ser cadeira. Simples. Se cadeira não for cadeira, ela é outro algo, não importa o que ela seja, mas cadeira ela não é. As consequências ontológicas desta afirmação não nos interessam aqui neste momento, pois isto é discussão para milênios, conforme observamos na história da Filosofia. O que nos interessa aqui são as implicações morais desta afirmação. Ao afirmar que “o que é, é”, Parmênides fundamenta a noção de identidade. Cada coisa é identificável através de seu ser, ou seja, através daquilo que a torna aquilo que ela é; distinguível de todas as outras. Isto inclui o homem. Mas além desta inclusão, isto gera uma implicação acerca e sobre o homem: o homem sabe que é, diferente de todos os outros seres.

O que isso tem de tão importante, caro leitor? Ora, tendo noção de sua condição ontológica, o homem então atribui valor às outras coisas e a si mesmo, já que todo homem possui esta condição. Se todo homem possui esta condição, então todo homem possui valor intrínseco e se distingue de todo o resto do universo. A vida humana passa a ter valor por sua condição ontológica de noção de seu ser no universo. O homem sabe que é algo, e isto o investe de poder e valor sobre aquilo que o cerca. O que ele fará com isso é assunto para outro momento. Aqui trataremos do valor enquanto condição humana.

Uma vida humana possui valor intrínseco, ou seja, apenas por estar vivo, cada ser humano possui um valor que deve ser preservado. De onde este valor provém? Justamente da condição de saber do homem. O homem sabe que existe e, mais do que isto, sabe que sua existência é condicionada por algo que está para além dele, seja o que for. A ordem à qual estamos sujeitos no universo ainda não nos foi revelada em sua totalidade e, argumentamos, mesmo que isto aconteça, talvez não seja suficiente para limitar-nos no que estamos para dizer: o homem possui potência. Os demais seres do universo são apenas aquilo que são. O homem pode ser uma infinidade de coisas, dentro das limitações de seu ser, conforme tratamos em nosso artigo Sobre a Liberdade e a Ordem. Não é necessário invocarmos Aristóteles para afirmar que o homem nasce em potência para alcançar o ato puro, ou seja, o homem nasce com todas as possibilidades da existência e da alma a seu dispor e luta para alcançar a pureza destas duas facetas constantes de seu ser.

Como pode, então, uma vida humana não possuir valor intrínseco? Ora, como podem pessoas deliberadamente remover todas as possibilidades de uma vida humana sem uma justificativa objetiva? Não podemos falar aqui apenas de justificativa plausível: a justificativa para encerrar uma vida humana deve ser objetiva, fundada em fatos, fechada à interpretação. Os relativistas nem se deem ao trabalho de começar a argumentar: Contra negantem principia non est disputandum, já apregoava Duns Scotus.

Retornando ao nosso ponto principal: a justificativa para encerrar uma vida humana deve ser fundamentada na ordem universal, exercida e percebida por nós através do lógos. Uma vida humana que esteja exercendo sua liberdade em uma tentativa de superar esta ordem estabelecida pelo lógos, num grau de ameaça às outras vidas humanas ou a algo que afronte sua permanência, de maneira irreparável, deve ser encerrada.

A pergunta que nos vem à cabeça de imediato ao proferirmos tal afirmação é: quem seria capaz de aferir tal violação? Quem estaria apto a dizer que determinada vida humana deve ser encerrada? Ao aferir que determinado fato resulta em conduta violadora da ordem universal, aquele que o sofreu, ou pelo menos presenciou, deveria dar conta de imediata resposta proporcional. Observe o caro leitor que não estamos aqui afirmando que devamos nos matar uns aos outros em nome da ordem universal. Nem começaremos a argumentar caso o leitor esteja internamente nos chamando de positivistas. O que estamos afirmando aqui é que uma análise desinteressada do fato (conforme exposta aqui) é necessária e é a única capaz de afirmar que determinada vida humana deva ser interrompida ou ter sua liberdade cerceada. Não estou afirmando que é dos filósofos a tarefa de desenvolver tal empreendimento, mas sim que é do espírito filosófico que deveria guiar nosso ser.

Nós deveríamos ser capazes de observar desinteressadamente os fatos que nos cercam para que nossas paixões não guiassem nossas ações ao erro. Neste sentido, também não afirmamos que a ordem jurídica está equivocada e deva ser totalmente revogada, nem o contrário. Estamos apenas questionando a validade de nossas normas do ponto de vista de sua relação com a ordem universal. Nossa ordem humana é um reflexo da ordem universal? Temos certeza disto?

Repensar o valor da vida humana de acordo com a capacidade (ou incapacidade) de sua potência de levá-la à sua plenitude é um passo a mais em direção a uma revalorização de seu caráter mais íntimo: seu ser. O ser é aquilo que nos distingue. É muito desgosto de nossa parte nos deixamos relegar à mera existência física.

Heráclito tinha razão: “não de mim, mas do logos tendo ouvido é sábio homologar tudo é um” (sic). Ou seja, não os homens, mas a ordem universal, se a conhecermos, saberemos que é sábio segui-la, pois tudo é um. As opiniões humanas são frágeis quando não estão em congruência com a ordem universal. Este é o problema da desvalorização do ser. “Um para mim vale mil, se for o melhor”, prossegue o naturalista. Não é sábio seguir opiniões, quiçá as opiniões de um homem qualquer, pois “um homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra”.

Reflitamos acerca do valor que nos é dado atualmente por nossos semelhantes e perceberemos que ele não é o devido. Que faremos a este respeito? Vamos chorar as mazelas da existência, como fazem os contemporâneos, ou vamos agir de acordo com a análise inspirada em nosso ser, em confluência com a ordem universal?